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O escritor sul-africano Achmat Dangor decidiu aproveitar esta manhã o Salão de Actos da Faculdade de Formación del Profesorado da Universidade de Las Palmas de Grã-Canária para enviar uma mensagem optimista aos alunos que enchiam a sala. “Temos tendência a pensar que o continente africano está condenado ao fracasso e é certo que existe guerra, pobreza e doença, mas também há progresso. Devemos recordar o passado, mas não nos deixarmos aprisionar por ele e libertar a nossa imaginação”, afirmou o autor, presidente da Fundação Mandela e protagonista do programa Letras Africanas da Casa África, que hoje o aproximava de um público estudantil na capital da Grã-Canária. “Pensem no que podem fazer para tornar o mundo num sítio melhor”, recomendou Dangor, antes de insistir que o passado é importante e que deve ser recordado, mas também que não podemos deixar que defina o nosso futuro.
Achmat Dangor explicou a cerca de 400 ouvintes que, depois de ter passado pelo Salão Internacional do Livro Africano (SILA) e ter participado com outros intelectuais africanos num debate sobre as independências do continente, tinha decidido descartar o seu discurso de oito páginas cuidadosamente dactilografadas com o título The Silence of my kind (O silêncio da minha gente), para substituí-lo por uma conversa directa com um tom mais informal e descontraído que poderia ter-se chamado My hope for Africa (A minha esperança para África). “Está na hora de começar a pensar de maneira diferente naquilo que podemos fazer. África pode fazê-lo e a mudança virá das pessoas mais jovens e abertas a novas ideais, que não funcionam em termos de raça ou nacionalidade, que vêem a humanidade do outro. A literatura é poderosa nesse sentido”, explicou.
Dangor voltou às suas origens e história familiar para explicar a sua paixão pela literatura e como acabou por tornar-se no estrangeiro de Camus. “Sou holandês e indonésio por parte da mãe e indiano por parte do pai, e cresci com a minha avó, que se tinha convertido ao Islão ao casar-se com o meu avó e que era mais conservadora do que ele. Cresci numa família muçulmana”, adiantou antes de afirmar que o que o salvou de um ambiente opressivo, devido a uma concepção fundamentalista da religião, foram os livros. “Foi numa escola que me introduziram à literatura. Em casa lia quando ninguém me via. Lia até adormecer ou quando os outros dormiam e lia de tudo, desde contos de fadas a Camus ou Hemingway. Um imã bateu-me quando descobriu um exemplar de O estrangeiro na minha mochila”, recordou, criticando uma visão do mundo que o divida em bom e mau e branco e preto, sem aceitar o que existe pelo meio. “A literatura ajudou-me a alcançar um mundo muito mais vasto”, afirmou Dangor, que saiu aos 18 anos da casa dos seus avós para se instalar na Cidade do Cabo e escrever o seu primeiro romance, Waiting for Leila”. “Libertei-me da minha sociedade e tornei-me no estrangeiro”, finalizou o autor.
Achmat Dangor também recordou os tempos de luta anti-apartheid e o activismo a partir das letras. “Não creio que se possa escravizar a literatura, mesmo que por uma causa nobre”, afirmou ao descrever os anos em que tentou converter as palavras em balas que acabassem com o segregacionismo sem o conseguir.
Achmat Dangor escreveu romances célebres de ficção, relatórios sobre o desenvolvimento e documentos que mencionam o racismo e as raças, orientados para a erradicação da pobreza e em prol do desenvolvimento comunitário. Três dos seus romances (Trilogia de Z Town, A maldição de Kafka e Fruta Amarga) foram publicados em Espanha. A Trilogia de Z Town inaugurou a linha editorial da Casa África em colaboração com ElCobre El Alpeh, dedicada à literatura africana de referência.